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Flávio Bolsonaro usa o pai entubado como palanque de pré-campanha

Flávio Bolsonaro usa o pai entubado como palanque de pré-campanha

Cabe perguntar por que essa sensibilidade não existiu quando direitos humanos eram desprezados, quando a tortura era relativizada e quando o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra era exaltado, inclusive em referência direta ao sofrimento da ex-presidente Dilma Rousseff acometida de câncer na época. Naquele momento, não houve empatia, não houve pudor, não houve limites.

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A exposição pública da internação de Jair Bolsonaro ultrapassou qualquer limite razoável e se transformou em um espetáculo político cuidadosamente encenado. Uma cirurgia necessária — descrita por médicos como um procedimento relativamente simples — foi convertida, pelos próprios filhos, em uma suposta tragédia nacional, como se o surgimento de uma hérnia fosse capaz de absolver comportamentos, discursos e práticas que marcaram negativamente a trajetória do ex-presidente.

Os filhos de Bolsonaro exageram deliberadamente, e esse tipo de conduta deveria, inclusive, ser objeto de restrições éticas. O hospital responsável pelo atendimento deveria, no mínimo, orientar contra o uso indevido da imagem de um paciente internado para fins de sensibilização política. O que se vê são imagens de Bolsonaro entubado, deitado, fragilizado, exploradas como instrumento de comoção, numa tentativa evidente de produzir empatia forçada e blindagem política.

Não se trata de discutir a gravidade clínica do caso. A questão central é outra: nenhuma liderança pública relevante — papa, presidente ou ex-presidente — se submete a esse grau de exposição em situações semelhantes, apenas a boletins médicos. O que está em curso é a instrumentalização da doença como estratégia de comunicação política. Há leitura de cartas, convocação da imprensa para coletivas em frente ao hospital e até o anúncio de que Bolsonaro teria “abençoado” o senador Flávio Bolsonaro como seu sucessor, o suposto “escolhido”, tudo em meio a um cenário hospitalar cuidadosamente explorado.

Essa encenação serve para alimentar emocionalmente a base de apoiadores e, ao mesmo tempo, tentar impor uma narrativa perversa: a de que qualquer crítica às atitudes históricas de Bolsonaro seria prova de insensibilidade ou desumanidade diante de sua condição médica. Cria-se, assim, um falso dilema moral, no qual discordar passa a ser tratado como crueldade.

A contradição é gritante. O mesmo grupo político que sempre atacou os direitos humanos agora recorre ao discurso humanitário como escudo retórico. Trata-se do mesmo Bolsonaro que ridicularizou vítimas da Covid-19, chamou a doença de “gripezinha”, imitou pessoas com falta de ar e zombou de uma tragédia que custou a vida de mais de 700 mil brasileiros. Hoje, seus filhos surgem com semblantes compungidos, convocam a imprensa, leem cartas e choram diante das câmeras, numa tentativa explícita de reescrever a própria história.

Que Jair Bolsonaro se recupere plenamente — desejar o contrário não cabe em uma sociedade civilizada. Mas a recuperação médica não apaga responsabilidades políticas e jurídicas. Ele teve amplo direito de defesa, é réu por crimes graves, incluindo tentativa de golpe, e deve responder por eles nos termos da lei.

O que não se pode aceitar é a tentativa de transformar uma internação hospitalar em palanque eleitoral. A exposição do pai, fragilizado, como ferramenta de pré-campanha é um desrespeito não apenas à inteligência da sociedade, mas também à própria noção de ética pública. Trata-se de um espetáculo indecoroso, no qual os filhos tentam, mais uma vez, surfar na emoção para esconder fatos. É um limite que não deveria ser ultrapassado — e, ainda assim, foi.

 

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