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“faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço"
O vereador CRYSTHOFOUR PEREIRA DE ALMEIDA, conhecido como Fão do Bolsonaro, também corretor de imóveis, obteve ganhos com a compra de imóvel do programa Minha Casa Minha Vida. Não há ilegalidade nenhuma nisso, mas falta vergonha na cara.
A incoerência surge quando, no Legislativo, ele passa a atacar com veemência os programas sociais do PT, inclusive esse que viabiliza moradia popular do qual se beneficiou.
Como integrante da classe trabalhadora, ele tem pleno direito de acessar políticas públicas. O que se questiona não é o direito, mas a contradição: criticar duramente programas que ajudaram a movimentar sua própria atividade econômica revela menos convicção ideológica e mais conveniência política.
Existe uma linha clara entre crítica legítima e oportunismo retórico. Criticar governo faz parte da democracia. O que não faz parte da coerência é crescer profissionalmente, acumular patrimônio e construir autoridade exatamente sobre políticas públicas criadas por esse mesmo governo, enquanto o descreve como “o pior da história”.
O discurso pode ser inflamado. Os fatos, não. Eles são objetivos.
O Minha Casa Minha Vida não nasceu de um palanque, mas de engenharia financeira aplicada: subsídio direto, juros reduzidos, ampliação de faixas de renda, uso de FGTS, crédito facilitado. Resultado? Dinheiro circulando, mercado aquecido, milhares de contratos assinados. Isso não é narrativa, é mecanismo econômico funcionando.
Chamar o governo de desastre absoluto enquanto depende do subsídio estatal para fechar vendas não é posição técnica; é contradição prática.
A incoerência se agrava quando o crítico foi beneficiário direto da política que hoje ataca. Comprar o primeiro imóvel com incentivo público, financiamento favorecido e depois revendê-lo com valorização expressiva não é errado, é inteligente. O que soa desonesto é fingir que a escada não existiu depois de já estar no topo.
O programa foi instituído pela Lei 11.977, sancionada em 2009 no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, e atravessou governos, inclusive o de Jair Bolsonaro, porque é política de Estado que gera acesso à moradia e movimento econômico. Sobreviveu a mudanças ideológicas porque funciona.
A pergunta é simples:
Se é tão ruim, por que foi bom o bastante para viabilizar o próprio imóvel?
Se é tão desastroso, por que continua sendo a principal alavanca de vendas populares?
Não há problema em ter lado. O problema é usufruir de um lado e discursar contra ele.
Coerência não exige aplauso incondicional — exige honestidade intelectual para reconhecer de onde veio o degrau que permitiu subir.
Não se trata de defender governo A ou B, mas reconhecer as políticas públicas que beneficiam os mais pobres.


